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quarta-feira, 27 de abril de 2011

SESSÃO ENTREVISTA: Marcílio Moraes

Marcílio Moraes posa em seu escritório, no Leblon, na zona sul carioca (25/4/11)

"Ribeirão do Tempo", que estreou em 18 de maio do ano passado, chega ao fim na próxima segunda-feira (2), com 250 capítulos. O autor da trama, Marcílio Moraes, de 66 anos, esperava que a novela, com previsão de término em janeiro de 2011, fosse esticada um pouquinho. Mas não que chegasse até maio. "Com a minha experiência em novelas, sei que os prazos nunca são sagrados. Sempre tem a possibilidade de aumentar e a gente aprende a se precaver. Primeiro, ela ia acabar em janeiro. Aí passou para depois do carnaval. No fim das contas, ficou quase um ano no ar", contabiliza. O escritor já entregou todos os capítulos para a emissora, mas isso não significa que o trabalho tenha acabado. "Não estou de férias porque acompanho a novela no ar", explica. Marcílio, agora, só pensa em descansar: "Para fazer outra novela, a Record vai ter que correr atrás de mim. Vou me esconder", brinca.

Apesar de ter sido esticada duas vezes, a trama de Marcílio Moraes teve média anual de 13 pontos. "'Ribeirão do Tempo' não foi uma campeã de audiência, mas foi boa. Acima de dez pontos na Record é bem razoável. O SBT colocou 'Ana Raio e Zé Trovão' para concorrer com a gente e a novela deles, apesar de ser uma reprise, teve uma audiência de 7 ou 8 pontos. Isso divide um pouco o telespectador. E ainda tinha os humorísticos, como o 'CQC', que é bom e tem o seu público. Fora que, de vez em quando, a Globo coloca a novela das nove até as 22h45", justifica.

Para o autor, Juliana Baroni, a Karina, e Bianca Rinaldi, a Arminda, foram as gratas surpresas. "No geral, todo mundo foi bem. Mas a Juliana  e a Bianca surpreenderam porque as duas personagens eram dúbias. Arminda era meio vilanesca, mas tinha uma paixão pelo Joca [Caio Junqueira], que fazia com que o espectador não ficasse com raiva dela", analisa.

Na entrevista exclusiva a seguir, feita no escritório usado por Marcílio para escrever suas tramas, na zona sul do Rio, o autor fala sobre a época em que trabalhava na Globo, as adversidades de "Ribeirão do Tempo" e o filme "A Lei e o Crime", que deve ser rodado no segundo semestre.

UOL - "Ribeirão do Tempo" foi a maior novela que você já escreveu?
Marcílio Moraes -
Foi a maior novela que já escrevi em termos de capítulos no ar. São 250 no ar e 215 escritos. É que tem capítulos menores e as tramas vão passando de um dia para o outro. A Record tem dessas coisas...

UOL - Você teve problemas para aumentar duas vezes a novela?
Marcílio Moraes -
Não tive problema porque eu tinha muito assunto. Tinha por onde ampliar a trama sem cair na mesmice.

UOL - Então qual foi a maior dificuldade que você enfrentou em "Ribeirão do Tempo"?
Marcílio Moraes -
A novela foi uma obra trabalhosa. É que a cidade toda era um personagem coletivo. Armar uma história com todo mundo junto, foi complicado. Era trabalhoso. Para o Querêncio [Taumaturgo Ferreira] descobrir que era filho da Madame Durrel [Jacqueline Laurence], movimentei toda a cidade. Jacqueline estava muito bem no papel, mas ela tinha que morrer para a história andar. Acho muito fajuto esse artifício de que morreu e depois não morreu. De repente, o morto reaparece. Não gosto muito. Em "Irmãos Coragem", enterraram um caixão cheio de pedras.

UOL - Mas você foi colaborador no remake de "Irmãos Coragem", em 1995, ao lado do Dias Gomes.
Marcílio Moraes -
Mas a Janete Clair tinha escrito isso em 1970!
UOL - "Ribeirão do Tempo" vai terminar em uma segunda-feira. Não seria melhor acabar na sexta-feira, como faz a Globo?
Marcílio Moraes - 
A Record tem essa estratégia porque considera que a terça-feira é o dia mais vulnerável da Globo. Mais do que a segunda porque a concorrência pode botar um filmaço e a Record perderia audiência. "Vidas Opostas" também terminou em uma segunda-feira.

UOL - Não seria bom se o último capítulo fosse, pelo menos, reprisado?
Marcílio Moraes -
Seria bom uma reprise, mesmo que fosse em outro dia que não a terça, já que é quando a Record quer estrear outra novela. Talvez uma boa opção fosse o domingo, que tem uma grade mais flexível. Muita gente perde o capítulo final. Se bem que hoje tem a internet, que facilita. Todos os capítulos estão na internet.

UOL - Você abordou temas polêmicos em "Ribeirão do Tempo", como política corrupta e pedofilia, no caso do senador interpretado por Heitor Martinez. Sofreu algum tipo de censura?
Marcílio Moraes -
Tive total liberdade. Não teve nenhuma restrição. Um ou outro detalhe às vezes acontece de ser cortado, como um capítulo que tenha muito palavrão. Aí, tiro alguns. Mas nunca o bispo [Edir Macedo] me ligou. O Hiran Silveira [diretor de teledramaturgia da Record] é que fazia contato. Mas este é um acordo que acontece em qualquer emissora. Reduzi um pouquinho as cenas picantes também. Mas nem botei muitas porque não gosto mesmo. Nesse aspecto, "Ribeirão do Tempo" era uma novela leve e bem-humorada.

UOL - Você já trabalhou na Globo, onde fez "Roda de Fogo", "Mandala" e "Sonho Meu". Acha que "Ribeirão do Tempo" se encaixa no perfil de sua antiga emissora?
Marcílio Moraes - 
Acho que a Globo não aprovaria por causa da política. Essa história de política, com pessoas fazendo ilações com o Lula, porque havia políticos bebendo cachaça... Só para esclarecer: o personagem bêbado não era o Lula. Não era ninguém. Mas isso seria uma preocupação na Globo. Pelo menos essa é a lembrança que eu tenho de lá. Pode ser que alguma coisa tenha mudado, mas acredito que não.

UOL - Você disse textualmente que não se inspirou no Lula para fazer os políticos de "Ribeirão". Mas teria se inspirado na política brasileira de um modo geral?
Marcílio Moraes -
Na política brasileira sim. A começar por essa história de que o senador tem um suplente que não é votado pelo povo. Se ele renunciar ou morrer, como aconteceu com o pai do Nicolau [Heitor Martinez], o suplente assume. E, no caso de "Ribeirão", Nicolau é um perverso, alucinado total. Ele não é um vilão comum porque tem perversões, como a pedofilia, e gosta de poder. Para piorar, o partido ainda o indica para a presidência. Ele faz um jogo com a morte o tempo inteiro.

UOL - E Nicolau morre no final?
Marcílio Moraes -
Todos os vilões serão punidos.

UOL - Isso significa que ele vai morrer, então?
Marcílio Moraes -
Me entreguei, né? Ele morre, sim. No último capítulo. Todos os crimes dele vão vir à tona. Mas eu não vou te contar como vai ser essa morte.


UOL - As gravações de "Ribeirão do Tempo" só terminam no sábado, dia 30. Isso foi uma estratégia para que o final não vazasse para a imprensa?
Marcílio Moraes -
É assim mesmo. Aconteceu. Não foi proposital.

UOL - Nasinho [Thelmo Fernandes] foi morto pela então mocinha Karina, feita pela Juliana Baroni. Ela já era uma possível vilã na história?
Marcílio Moraes -
Ela já tinha características, mas nem era tão vilã. Karina começou na trama como namorada do Tito [Ângelo Paes Leme]. Aí, ele transa com a Filomena [Liliana Castro], que fica rica. E Tito se casa com Filó para salvar a pousada, deixando Karina para trás. Ela ficou abandonada, o senador se interessou por ela, os dois transaram enquanto ela ainda estava com Tito e aos poucos vai entrando na maluquice de Nicolau. Mas Karina sempre foi mentirosa. No começo, não tinha ideia de que ela seria capaz de matar e nem havia pensado em juntá-la com Nicolau. No meio do caminho, achei que seria um casal interessante. Juliana estava fazendo bem e achei que valia a virada da personagem. Ela já tinha esse potencial.

UOL - Você sentiu dificuldade em escalar o elenco? Galãs são sempre difíceis na hora da escalação...
Marcílio Moraes -
Não gosto de galãs. Não ligo para essas categorias de galã ou vilão. Prefiro os personagens mais normais. O casal romântico de "Ribeirão" era o Joca boboca com a Arminda, que era malvada e desprezava ele. Joca era um personagem querido por ser atrapalhado. Podia ter escolhido até alguém mais feio do que o Caio Junqueira. O Caio é até bem bonitinho. [risos] Não houve dificuldade na escalação. Não faço um personagem para um determinado ator. Eu crio o personagem. Depois vejo quem pode fazer bem. Isso me dá mais liberdade para escrever e desafia o ator também. Esse negócio de dar o personagem para o ator é ruim. O cara pode não querer, não estar com vontade de fazer...

UOL - Como é a sua rotina quando está escrevendo?
Marcílio Moraes -
Novela é um inferno! Ocupa o tempo todo fisicamente e mentalmente. Eu acordo, leio o jornal, saio de casa e venho para o escritório para ficar mais isolado. Passo aqui o dia todo. Só volto para casa à noite. Aí, vejo a novela no ar. Eu gosto para ver a concorrência, ficar de olho no Ibope. Muitas vezes trabalhava em casa mesmo quando a novela terminava. É muito desgastante. No final, escrevi 7 mil laudas.

UOL - Você se preocupa com o Ibope?
Marcílio Moraes -
Hoje não tem mais aquele aparelhinho que mede a audiência. A Record paga e dá uma senha para o autor acompanhar o Ibope pela internet. Não fico preocupado com o Ibope, mas acompanho. Na Record, dando acima de dez pontos, já fica mais tranquilo.

UOL - Você foi colaborador de Aguinaldo Silva em "Roque Santeiro" [1985], e também de Dias Gomes no remake de "Irmãos Coragem" [1995]. Que qualidades você destaca nestes dois autores?
Marcílio Moraes -
O Aguinaldo é competente, estruturava muito bem os capítulos. O Dias era mais um mestre mesmo. Vinha do teatro, como eu, e nós tínhamos uma identificação maior.

UOL - "Roque Santeiro" foi escolhida para substituir "Vale Tudo", de Gilberto Braga,  no Canal Viva. Como você recebeu essa notícia?
Marcílio Moraes -
"Roque Santeiro" já foi reprisado no "Vale a Pena Ver de Novo".  "Vale Tudo" nunca tinha sido. Talvez "Roque Santeiro" não faça tanto sucesso por isso. Mas é claro que vou dar uma olhada. Eu assino o Viva. Mas não vou ver tudo de novo.

UOL - Você diz que Dias Gomes é um mestre e se identificava mais com ele. Mas ele te deixou com um problema nas mãos quando escreveu só 26 capítulos de "Mandala" [1987] e você assumiu o restante da novela...

Marcílio Moraes - Isso já estava previsto. Ele ia escrever 36 capítulos e depois eu assumia. Ele só escreveu dez a menos. "Mandala" foi um projeto muito ousado de fazer. Era complicada a questão do relacionamento amoroso entre a mãe e o filho. E depois é que se viu que o problema era enorme. Na época, o Boni {José Bonifácio de Oliveira] tinha assinado um compromisso com a censura de que o incesto não ia acontecer. Me mostraram a carta. Aquilo foi um inferno. A Vera Fischer, que fazia a Jocasta, se apaixonou de verdade pelo Felipe, que era o Édipo e chegou a largar o então marido. Foi um inferno completo. Foi muito duro de fazer. Consegui contornar a situação graças ao bicheiro Tony Carrado [Nuno Leal Maia], que se apaixonou pela Jocasta.

UOL - Você saiu da Globo em 2002. O que aconteceu?
Marcílio Moraes -
A gente não se entendia. Os projetos que eu queria fazer, a Globo não aceitava. E o que eles queriam que eu fizesse, eu não concordava. Resumido: Eu estava de saco cheio da Globo e eles de saco cheio de mim.

UOL - Depois da sua saída da Globo, você ficou três anos sem emprego. Como viveu essa época?
Marcílio Moraes -
Foi complicado, mas eu tinha uma reserva. Na realidade, para mim era mais traumático porque a Globo é uma empresa. E eu era um escritor só. Pensei... E agora? Se não aparecer alguma coisa legal? Mas faço teatro... Me viro... Não tinha mais nada em termos de teledramaturgia. A Record não estava em expansão. O SBT só fazia novelas mexicanas e a Record fazia poucas coisas. Nesse tempo, eu reciclei minha cabeça e depois, felizmente, fechei com a Record.

UOL - Seu contrato com a Record vai até 2013. Já pensa em um novo projeto?
Marcílio Moraes -
Para fazer outra novela, a Record vai ter que correr atrás de mim. Vou me esconder. É muito tempo. Não é tão cansativo, mas você tem que se dedicar o tempo inteiro para aquilo. Deixei de nadar, que é uma coisa que eu adoro fazer. Ia duas vezes por mês à natação. Aí é chato. Mas tem um seriado policial que a gente quer fazer. O "Chapa Quente", mas esse é um nome provisório, que com certeza vai mudar. Penso em fazer esse ano ainda, mas no segundo semestre. Seriado é sempre mais leve, com poucos capítulos. Inicialmente, seriam quatro capítulos. Agora vamos ter que conversar de novo. Mas sempre é pouco. Não são 200, como em uma novela.

UOL - Em 2010, você fez o seriado "A Lei e o Crime". Ele vai mesmo virar um filme?
Marcílio Moraes -
O roteiro está pronto. É uma produção independente com apoio da Record. Atrasou por questões burocráticas de captação de recursos. Já era para ter saído, mas agora eu acho que vai. Deve ser filmado esse ano. Ainda não tenho elenco definido porque tenho que rever, fazer o segundo tratamento no roteiro. A nossa realidade mudou. A bandidagem já não está tão presente na mídia do Rio de Janeiro. E teve as ocupações nos morros cariocas recentemente. Pode ser que eu inclua a ocupação no roteiro.

UOL - "Vidas Opostas" [2006] tinha conflitos policiais. "Ribeirão do Tempo" teve oito assassinatos até agora e ainda tem o seriado "A Lei e o Crime" para virar filme. O estilo policial te atrai?
Marcílio Moraes -
Eu tenho facilidade de fazer o gênero policial. Mas em "Ribeirão" não teve o tradiiconal quem matou?. Existem duas maneiras de se fazer bem esse estilo: ou há uma situação em que os personagens sabem o mistério e o espectador não sabe, ou vice-versa. Os personagens não sabem que o Flores [Antônio Grassi] é o vilão, mas nós sabemos. Isso cria um mistério que funciona bem. Acho que o  quem matou? fica muito fajuto normalmente porque acaba podendo ser qualquer um. Você inventa na hora uma história para aquele que matou. Um romance policial tem que ser mais rigoroso. Não sou um grande leitor de livros policiais, mas gosto de escrever.

UOL - Com quais atores você gosta de trabalhar?
Marcílio Moraes -
Gosto do Ângelo Paes Leme e do Heitor Martinez. Também admiro muito o trabalho da Adriana Garambone, mas nunca acontece de a gente trabalhar. Agora ela está no ar em "Rebelde".

UOL - Seus próximos projetos são para o segundo semestre. Isso significa que você vai ter apenas dois meses de férias. Já pensou no que vai fazer?
Marcílio Moraes -
Não sei ainda. Estou acabando uma obra na minha casa, na Gávea [na zona sul do Rio de Janeiro], mas depois vou fazer uma viagem. A família fica meio de lado quando se está envolvido em um projeto grande como uma novela. Os filhos cresceram e foram embora, os amigos sumiram. Só ficou a mulher [a professora Violeta Quental], que está comigo há trinta e poucos anos.

terça-feira, 18 de maio de 2010

SESSÃO ENTREVISTA: Marcílio Moraes, autor de "Ribeirão do Tempo"


"Ribeirão do Tempo" pode representar definitivamente o regresso das telenovelas ao estilo que eternizou Dias Gomes, autor da saudosa "Roque Santeiro". Marcílio Moraes, autor da nova novela da Record garante que, pelo menos, “influência”, do autor com quem várias vezes trabalhou, terá. E a trama que substitui agora "Bela, a Feia" na telinha da Record é considerada mesmo pelo novelista como uma “sátira, uma metáfora do Brasil, mas com todos os problemas habituais e personagens típicos do interior”, tal e qual as várias novelas de Dias Gomes se apresentavam aos seus telespectadores nas décadas de 70 e de 80.

A aposta numa vilã com bom fundo e num protagonista “meio boboca” é reconhecida por Marcílio Moraes como “pouco comum”. Apesar do casal inusitado, o dramaturgo explica que a trama “mexe com questões ambientais” e vai discutir em simultâneo “a questão da uniformização de tudo”. A construção de um resort numa pacata cidade do interior até então traz igualmente ao de cima “sujeitos estranhos”, como um ermitão, um detetive atrapalhado, um bêbado e um quase deficiente mental. “Não pretendo fazer merchandising social em cima desses personagens”, garante.

Além da aposta em personagens-tipo que marcaram a infância de Marcílio Moraes, passada em Petrópolis, o autor da Record garante que na novela não vai haver um “quem matou”, dado que o público vai saber desde a primeira hora “quem é o criminoso” que cometerá uma série de crimes. Apesar de as gravações da trama já terem começado em 2009, sob alçada de Edgard Miranda, com quem Marcílio “garante se dar muito bem”, o autor explica que foi a frente de gravações quem se adiantou, pelo que a diferença entre aquilo que já escreveu, cerca de 30 capítulos, e aquilo que vai ao ar não é muito diferente das suas outras novelas.

Esquivando-se a comentar a relação entre a Record e a Televisa, por não querer “falar de decisões empresariais” alheias, Marcílio Moraes espera que "Ribeirão do Tempo", cuja ideia surgiu da fusão de um romance político-policial inacabado, de uma obra de um romancista russo e de uma sinopse antiga sobre esportes radicais, “não faça feio, caso concorra com ‘Passione’ durante alguns minutos”. E garante: o tratamento da violência ficou absolutamente para trás, porque “não havia nada de novo a tratar” sobre esse gênero em "Ribeirão do Tempo". A entrevista exclusiva concedida a Bruno Cardoso, você pode conferir agora:

"Ribeirão do Tempo" tem características que fogem da violência e do mundo da criminalidade que marcaram "A Lei e o Crime" e "Vidas Opostas". Com essa novela, você vai tentar calar as más-línguas que diziam que você não iria apostar num outro gênero de telenovela? Como você descreveria "Ribeirão do Tempo"?
Marcílio Moraes: “Ribeirão do Tempo” é a novela que me deu vontade de fazer, quando a Record me pediu uma sinopse. Não pensei em calar ninguém. Simplesmente achei que eu não tinha mais nada de novo para tratar na temática de violência urbana. “Ribeirão do Tempo” vai ser uma comédia satírica, a ironia é sua característica mais relevante.

Você tem descrito a trama como uma “novela clássica”, mas também já admitiu que os tradicionais protagonistas maniqueístas aqui não terão lugar. Como você pretende então conciliar o classicismo da novela com a fuga ao tradicional maniqueísmo?
MM: Será que eu disse que seria uma “novela clássica”? De qualquer forma, “Ribeirão do Tempo” vai ter os elementos clássicos do folhetim: mistério, amores proibidos, conflitos sociais, etc. Quando eu digo que não vai ter maniqueísmo quero ressaltar que não trabalho no esquema de um grande vilão para ser odiado contra um ou uma mocinho/mocinha para ser amado/a. Claro que isso não pode ser absoluto. Mas se o autor pensa em conflitos entre personagens ao invés de vilão x mocinho, já está se afastando do maniqueísmo. Só para aguçar a curiosidade, posso adiantar que em “Ribeirão” teremos um vilão com boas intenções e um mocinho boboca.

"Ribeirão do Tempo" é a volta das histórias às cidadezinhas pacatas, histórias fabulosas, que pretendem ser uma metáfora da sociedade atual e da política nacional. É o verdadeiro regresso a um tipo de trama que marcou Dias Gomes, com quem você aliás já colaborou?
MM: A história que vai ser contada, até certo ponto, pretende ser uma metáfora do Brasil, e não propriamente a cidade. “Ribeirão do Tempo” é uma cidade pequena mas que vive problemas universais, como o confronto entre tradição e modernidade, conspiração, radicalismo político, etc. Na cidade, de fato, vivem os personagens típicos de interior, mas tem também personagens inéditos na teledramaturgia, como o Nicolau, com raízes na literatura russa do século dezenove e na perversão das elites brasileiras; tem o Professor Flores, um homem que ainda vive a utopia revolucionária da década de sessenta. Não haverá realismo fantástico em “Ribeirão do Tempo”. Mas sem dúvida haverá influência do meu amigo Dias Gomes, de quem fui parceiro em diversas obras, e não colaborador.

Os personagens do Jumento, do Ermitão, considerado um verdadeiro fantasma que ronda a cidade, e do Sereno, o deficiente mental, escondem verdadeiros segredos?
MM: Esses que você citou são alguns dos personagens típicos de cidade pequena, alguns criados a partir de reminiscências da minha juventude em Petrópolis. Eles estarão envolvidos nas diversas tramas, às vezes de forma surpreendente.

Como você chegou ao nome de "Ribeirão do Tempo"?
MM: Na tradição filosófica se associa muito o conceito de tempo com o fluir de um rio. É comum a expressão “rio do tempo”. Como a trama da minha novela se constrói em grande parte a partir do tempo, me lembrei da filosofia, troquei rio por ribeirão, que é bem popular, e criei o título. O enredo da novela se baseia num romance político-policial inacabado que eu tinha, numa antiga sinopse sobre esportes radicais e num livro do romancista russo Dostoiévski, chamado “Os Demônios”, que trata de uma conspiração política.

A história da novela se desenrola a partir da intenção de construir um resort nessa tal cidadezinha pacata. O que você pretende trazer a público com esse ponto de partida?
MM: A construção do resort desencadeia inúmeros conflitos na cidade. Em primeiro lugar, a questão ambiental, porque ele vai mexer com a natureza. Também o aspecto comportamental, porque o afluxo esperado de hordas de turistas vai alterar os hábitos dos cidadãos. No fundo, o que estará em debate será a globalização. O perigo da uniformização de tudo.

A personagem da Bianca Rinaldi, Arminda, uma executiva implacável. vai se envolver com Joca, do Caio Junqueira, um detetive atrapalhado. É uma dupla amorosa não muito comum, não concorda?
MM: O Joca é um caipira meio bobão que vai se envolver numa trama de proporções nacionais. É um homem simples, do povo. Não é difícil fazer o espectador se identificar com ele. Já a Arminda vai ser construída para que o espectador a deteste. Só que ela terá um sentimento que, eu acredito, a redimirá diante do público: a atração irresistível que sente pelo bobo Joca. É um casal improvável, concordo. Sei do risco que estou correndo. Mas acredito que conseguirei ganhar a audiência.

O Tito, personagem do Ângelo Paes Leme, é um praticante de esportes radicais e está de noivado com Karina, da Juliana Baroni. Tendo sido ela apresentada desde sempre como uma vilã e ele como um rapaz bonzinho, é um dado adquirido que ele vai dar um chute na bunda dela?
MM: O Tito é inteiramente apaixonado pela Karina que, em princípio, não é uma vilã clássica. Ela se tornará perigosa depois que for traída pelo noivo, Tito. E a terceira pessoa não terá boa vida para separar este casal.

De um lado da história, temos uma multinacional que vai investir na cidade, do outro esportes radicais que trazem turistas a Ribeirão do Tempo. A juntar a isto uma série de “crimes bárbaros”. Os telespectadores poderão esperar algo do tipo “A Próxima Vítima”?
MM: O que une as três vertentes da história é se passarem no mesmo lugar, a cidade de “Ribeirão do Tempo”. Como é um lugar pequeno, o que acontece com um reflete nos outros e tudo acaba se conjugando. Não tem nada a ver com “A Próxima Vítima”. Não vou fazer uma novela de “quem matou”. O espectador vai saber quem é o criminoso.

"Ribeirão do Tempo" vai apresentar ainda um personagem deficiente mental e um outro completamente alcoolizado. Você pretende fazer uma campanha de sensibilização em torno dos dois assuntos?
MM: Não tenho nenhuma intenção de fazer o chamado “merchandising social” em “Ribeirão do Tempo”. Os personagens têm seus problemas, seus defeitos, suas perversões, e não sou eu que vou tentar curá-los. Eles viverão sua história, como os outros. O Sereno não é propriamente um deficiente mental, é um sujeito esquisito. E o cachaceiro é igual a milhões de outros que vivem aí pelo Brasil e pelo mundo.

Dessa vez, você não conta com a parceria do Alexandre Avancini, que dirigiu seus dois trabalhos anteriores. Como está sendo a dobradinha com o Edgard Miranda?
MM: Estou me dando muito bem com o Edgar. Ele é um diretor jovem, cheio de energia e muito competente. Já havíamos trabalhado juntos. Ele assumiu a direção de “Vidas Opostas” no final, porque o Avancini precisou se afastar para fazer outra novela. Não houve nenhuma razão especial para não trabalhar com o Avancini desta vez. Foi um problema de agendas.

Porque decidiu escolher as cidades de Brotas e de Casemiro de Abreu para ambientar parte das externas da novela?
MM: Esse foi um problema da produção. Eu criei uma cidade imaginária, por onde corre um rio, com o qual meus personagens se relacionam de diversas formas. Achar esse rio e gravar nele já não era problema meu.

Você deu indicações às equipes de cenografia, de direção, de como queria ver concebida a cidade cenográfica de "Ribeirão do Tempo"?
MM: Na sinopse eu descrevi as características básicas da cidade. Depois tive algumas conversas com a equipe de cenografia. Eles fizeram um trabalho magnífico, estão de parabéns. Todos os espaços da cidade poderão ser vistos pelos telespectadores.

Tendo a novela iniciado as gravações ainda em 2009, você não teme que o adiantado rumo dos trabalhos possa complicar o desempenho da novela caso haja rejeição do público?
MM: O adiamento não interferiu na distância que eu acho ideal entre capítulo escrito e capítulo no ar. Tenho 30 capítulos escritos para a estreia, mais ou menos o que tive nas outras novelas. As gravações é que se adiantaram. Eles já têm vários capítulos prontos, o que é raro em telenovelas.

Como você encara a parceria Record–Televisa?
MM: A parceria Record-Televisa foi uma decisão empresarial. Não me cabe discutí-la numa entrevista.

Você tem uma perspectiva crítica relativamente a "Bela, a Feia", novela que iniciou essa dobradinha e a qual você se prepara para vir a substituir? A desativação, ainda que temporária, de uma das duas novelas levadas simultaneamente ao ar na Record, te deixou de pé atrás com a emissora?
MM: Como contratado pela Record, tenho tido oportunidade de realizar trabalhos que não seriam possíveis em outras emissoras. Do meu ponto de vista, estou satisfeito. As demais decisões da empresa não me cabe discutir.

Competir, ainda que minutos, com"Passione", de Sílvio de Abreu, não poderá prejudicar a sua novela, que também está numa fase inicial?
MM: São duas novelas que irão ao ar em momentos diferentes. Cada uma terá seu desempenho, bom ou mau, dependendo da aceitação do público. Não dá para prever nada ainda. Se coincidirem em alguns momentos, espero que a minha não faça feio.

Como você descreveria "Ribeirão do Tempo" para os internautas do NaTelinha?
MM: Uma novela que trabalha com a ironia. Como a ironia é atributo da inteligência, estou apostando na inteligência do espectador, sem prejuízo de todas as emoções que a novela poderá despertar.