quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Marcílio Moraes relembra trabalhos na TV


Assinar novelas na Globo é o desejo de muitos autores. Marcílio Moraes construiu sua carreira na emissora, onde também teve a chance de escrever ao lado de Dias Gomes. Mas foi na Record que fez sua novela mais expressiva, "Vidas Opostas" (2006/2007). Com uma temática inovadora que mostrava a divisão da sociedade brasileira entre ricos e pobres, ele conseguiu fazer o que jamais faria na Globo. "Lá, tinha esse negócio de pobre não é bom, não vende novela", lembra o autor que, atualmente, assina "Ribeirão do Tempo".

Com a maior parte dos personagens sendo moradores de favela, a história de "Vidas Opostas" foi recebida com um certo receio por parte da emissora, que estava preocupada com os anunciantes, mas acabou aceitando a proposta de Marcílio. Ele, por sua vez, também ficou com medo. "Botar metade da história na favela era uma ousadia. E deu certo", constata. Logo depois, Marcílio sugeriu aproveitar a boa repercussão de "Vidas Opostas" para fazer "A Lei e O Crime". De temática semelhante, o seriado agora vai virar filme. "Está em fase de captação, mas está tudo certo. Já até me pagaram pela parte do roteiro", revela.

A saída da Globo, aliás, foi vontade do próprio Marcílio, que já não estava satisfeito com o trabalho. "O que eles queriam que eu fizesse, eu não queria fazer. Os projetos que eu apresentava, eles também não queriam", conta. Por isso, o contrato acabou não sendo renovado em 2002 e Marcílio ficou fora da televisão por três anos.

Na época, a Record ainda não estava fazendo grandes investimentos em teledramaturgia e o autor não tinha para onde ir. "Não fiquei desesperado porque sempre tenho fundo [uma reserva financeira]. É uma coisa que aconselho todo mundo a ter, senão você fica preso a um trabalho e se submete a qualquer negócio", avalia Marcílio, bem-humorado. Ao ser convidado para trabalhar na Record, em 2005, o autor foi supervisionar a equipe de "Essas Mulheres". "A coisa não estava indo e me pediram para escrever. Mudei o que achava que devia, fiz o primeiro capítulo e levei a novela até o fim", revela.

A primeira oportunidade de escrever para a TV surgiu quando Marcílio ajudou Ferreira Gullar na minissérie "A Juíza", da Globo, anos 1980. A produção não chegou a ir ao ar, mas por causa dela, Gullar indicou Marcílio para trabalhar com Dias Gomes em "Roque Santeiro". A parceria, então, continuou. Tanto que os dois trabalharam juntos em "Mandala", no remake de "Irmãos Coragem" e nas minisséries "As Noivas de Copacabana" e "Dona Flor e Seus Dois Maridos".

De "Mandala", Marcílio traz lembranças marcantes. Principalmente porque o tema era polêmico. "Era uma ideia maluca, Édipo Rei. A mãe transa com o filho ou não transa? Acho que o Dias não tinha noção da doideira daquilo e ficou na minha mão depois", recorda ele, que assumiu a trama a partir do capítulo 26. "O Dias combinou comigo que faria 36 capítulos e depois eu tocaria a novela. Mas ele acabou fazendo 26", conta.

Em 1990, foi a vez de "Mico Preto", que Marcílio escreveu com Euclydes Marinho e Leonor Bassères. Mas o trabalho não foi fácil e audiência deixou a desejar. "Esse negócio de ter três autores foi tumultuado", analisa. Três anos depois, fez "Sonho Meu", baseada em obras de Teixeira Filho, e lembra que foi um sucesso. "Outro dia, estava lendo que foi a última novela da Globo no horário das seis que deu média acima dos 40 pontos. Hoje, nem novela das oito chega aos 40", espanta-se.

Agora, à frente de "Ribeirão do Tempo", Marcílio se diverte ao escrever uma novela cuja proposta é fazer uma sátira da política brasileira. Mas reconhece que tem lá suas dificuldades. "O espectador embarca mais com ação. Ironia é uma coisa mais complicada", ressalta.

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