sábado, 18 de janeiro de 2014

Amores Roubados – Capítulo 10 [Final]




Tocante… Grandioso… Estupendo… Este capítulo final colocou “Amores Roubados” definitivamente na história da teledramaturgia brasileira.

Quem leu minhas últimas nove críticas sobre “Amores Roubados” sabe que, durante todo o seu percurso, eu fui um fã incondicional de todo o trabalho que George Moura e José Luiz Villamarim estavam nos entregando. Tamanha era a minha admiração pela minissérie que, em determinado momento, não sem razão, fui acusado por um leitor de uma excessiva adjetivação da obra.

Admito, sou culpado disso. Sou culpado de admirar inteiramente uma obra que em todos os seus aspectos técnicos e textuais, em suas atuações, em sua trilha sonora, em todos os seus mínimos detalhes demonstrou o esmero de sua equipe de produção em entregar um produto de qualidade para o público. Público este tão acostumado com o comum, o vulgar, o mediano… Ainda assim, utilizei o meu nem tão amplo vocabulário de adjetivos apenas para tentar mostrar em palavras aquilo que era impossível: a magnitude de sentimentos que “Amores Roubados” despertava em mim.

Mas em respeito aos meus leitores e em busca de uma objetividade, diante deste capítulo final arrebatador, decidir utilizar apenas os três adjetivos que abriram esta derradeira crítica: TOCANTE (adj. Comovente, emocionante), GRANDIOSO (adj. Com grandeza, com magnificência, imponente, nobre, sublime) e ESTUPENDO (adj. Que ocasiona assombro; que causa admiração; extraordinário. Que exprime ou provoca espanto por ser grandioso; descomunal. Maravilhoso; surpreendente, fantástico. Monstruoso; assombroso ou espantoso. Extraordinário; fora do comum, excepcional) e tentarei definir “Amores” com apenas estes três adjetivos. Árdua tarefa.

Desde que se assumiu como um thriller, “Amores Roubados” entrou em uma trama policial ágil, direta e quase sem rodeios. Desta forma, este último capítulo começou exatamente do onde paramos ontem, com a descoberta de Antônia de que o pai fora o responsável pela morte de Leandro. Poucos minutos depois o episódio já dava sinais de como seriam as coisas dali em diante, com Bigode atirando contra Fortunato e Antônia gritando contra ele e João.

Era a hora da verdade. Era a hora de finalizar as tramas. Atar os nós. As pessoas diretamente ligadas a Leandro Dantas teriam seus destinos selados de uma vez por todas.

A começar pela primeira grande amante de Leandro, Celeste. Fogosa, impetuosa e inconsequente, Celeste nunca amou Leandro – apesar do que suas cartas diziam – sentindo apenas uma obsessão, sentindo-se dona do rapaz, o que refletia bem sua personalidade possessiva, de mulher rica, poderosa, que sempre teve tudo o que quis na vida. Cavalcanti, de certa forma, fora culpado também pela traição que sofrera, por paparicar demais a mulher a vida toda. E acredito que até pelo grau de envolvimento que Celeste teve com Leandro, que nunca foi tão sentimental e sim carnal, ela foi a personagem que menos teve o seu destino impactado pelo sommelier. Seu final, apesar dos pesares, foi feliz. Celeste sofreu sim quando o marido descobriu a traição, mas não sofreu nada mais do que merecia sofrer pela sua inconsequência… Talvez por isso, no final, deixou de lado a impetuosidade e tornou-se mais humilde ao enxergar aquilo que realmente valia a pena. O que sempre valeu. Sua família. E assim, balançados, mas unidos, nos despedimos dos Cavalcanti.

Outra mulher com seu destino eternamente atrelado ao de Leandro, mesmo que não tenha sido sua amante, foi Carolina. O relacionamento dos dois começou de maneira terrível mas foi evoluindo, e ouso dizer ser um dos relacionamentos mãe/filho mais bonitos que já vi na televisão brasileira. No auge das perseguições, segredos e reviravoltas que tivemos nos últimos capítulos não tivemos tempo para parar e refletir sobre os últimos momentos de Leandro. E a verdade é que seu último grande ato foi perdoar e ser perdoado pela mãe.

Lembro-me bem a emoção que a cena do pedido de perdão me causou e, ainda com aquela ela clara na minha cabeça, me arrepiei completamente quando vi a última cena de Carolina, que foi igualmente tocante, arrebatadora. E assim nos despedimos desta personagem da incomparável Cássia Kis Magro, e foi neste momento que “Amores Roubados” tornou-se TOCANTE.

Mal tínhamos visto a segunda chance dada à família Cavalcanti – representada pela cena de Celeste, Roberto e Thiaguinho brincavam felizes – e já fomos lançados para a sequência entre Carolina e Fortunato. A dor já me atingiu naquele momento, pois assim como Fortunato, eu me senti ali diante de Carolina incapaz de comunicar a ela o que de fato ocorrera com seu filho. No fundo, Carolina sabe que não voltará a ver Leandro. Ela é mãe. Seu coração provavelmente já lhe dizia a verdade. Não cabia a Fortunato lhe contar isso. Sobretudo depois de ouvir Carolina dizer que só seria totalmente feliz com o filho…

E neste momento – o primeiro momento realmente marcante deste último capítulo – quando Carolina abraça Fortunato em prantos, eu também me encontrava em prantos e percebi a capacidade da minissérie em ser emocional, visceral… tocante. Ali havia a certeza que nunca mais voltaríamos a ver Carolina – assim como ela não voltaria a ver seu filho – e havia um misto de luto e alegria em vê-la ali, em prantos, de coração destruído, mas ainda assim com toda a pompa, vestida como imaginava se vestir a mulher respeitosa que Carolina sempre quis ser. E assim nos despedíamos da magistral Cássia Kis Magro, que me levou às lágrimas na metade do capítulo com essa que já é uma de suas personagens mais marcantes.

Até então eram finalizados também os destinos daqueles que, mesmo não se envolvendo diretamente com Leandro, tiveram suas vidas impactadas pelo rapaz. É o caso de Fortunato que, fugido, manteve consigo o que tinha de mais valioso: sua própria vida. E o que Fortunato deixou para trás? Uma excelente atuação de Jesuíta Barbosa que, após esta chance, deve ser melhor observado pela Globo e receber tantas outras chances, pois se trata de um ator novo e talentosíssimo.

Outro ator talentosíssimo que também teve, em “Amores Roubados”, uma vitrine – embora ligeiramente mais famoso que Jesuíta, sobretudo por Tropa de Elite 2 – foi Irandhir Santos que conseguiu manter seu João enigmático e sombrio do primeiro ao último capítulo da série. E ainda que muitos tenham reclamado pela falta de uma finalização concreta para seu personagem, eu não chego a achar isso um problema. O poder e a força de João só existia em razão da subordinação deste a Jaime e, com o fim do reinado de seu “padrinho”, é de se desconfiar que João se perdeu na vida. Mas não sem antes nos revelar o grande mistério por trás dos desenhos de cadeiras – que simbolizavam, de uma só vez, sua ambição de ter tudo o que pertencia aos Favais e o amor que sentia por Antônia, que para ele era o caminho até a cadeira que era sua por direito – e se livrar também de Bigode.

Restava então dar um fim definitivo à família Favais, a mais impactada por Leandro Dantas. E este final foi sendo criado gradativamente, durante todo o último capítulo, enquanto víamos outras famílias tendo seus destinos definidos apenas para que conseguíssemos, no final, comparar e entender o que faziam os Favais tão diferentes de Celeste, Carolina, Fortunato e os outros… E mais, entender porque eles foram os mais devastados após a passagem de Leandro por Sertão.

E a verdade é que não foi o sommelier quem destruiu a família Favais. Ela já estava destruída bem antes disso. Dá pra enxergar nos Favais uma grande alegoria a muitas famílias reais, que são construídas a partir do amor, do respeito, da admiração, da lealdade, mas que, no decorrer dos anos, vai perdendo esses valores… É o marido que trabalha demais e perde o contato com a família. É a mulher que é abandonada pelo marido e pela filha e simplesmente não suporta viver com seus fantasmas. É a filha que sabe que o mundo é maior do que o que fora planejado para ela pelos pais. São as mentiras. São os segredos. São as não-verdades. São os falsos sorrisos. A falsa sensação de que está tudo bem. É a poeira jogada debaixo do tapete. São os remédios que te ajudam a sobreviver a mais um dia. É a necessidade de ser em público aquilo que já não se é na privacidade… Foi tudo isso que destruiu a família Favais, não foi Leandro.

E se Jaime utiliza-se do seu coronelismo e de sua arrogância para por um fim em sua mulher – afinal, o “adeus” dele demonstra que, por ele, Isabel não sairia do manicômio tão cedo – o mesmo não ocorre quando ele enfrenta de uma vez por todas a filha, onde ele é totalmente subjugado por ela. É engraçado notar que, até saber sobre a verdade acerca da morte de Leandro, Antônia não tinha ainda enfrentado o pai e a minissérie nunca trabalhou nos conflitos existentes entre eles, sempre se focando nas relações amorosas e nas traições. Mas eles sempre estiveram ali, acumulando-se. E explodiram, todos de uma vez só, na cena final entre pai em filha, na beira do penhasco. Ísis Valverde (absolutamente FANTÁSTICA) e Murilo Benício nos deram uma cena tão bela, tão crua, tão real, tão violenta, que naquele momento “Amores Roubados” tornou-se GRANDIOSA por tudo o que ousava nos oferecer. Bem mais do que a televisão normalmente nos oferece. Era o desaforo da minissérie pedindo seu lugar de direito na história da teledramaturgia nacional.

Durante toda sua trajetória na série, Jaime Favais acumulou o ódio de muitas pessoas – o meu incluso – mas sua morte não foi nada bonita. Não foi um final feliz. Não foi o final merecido de um vilão. E simplesmente porque Jaime não era um vilão… Ele era tão vítima quanto Isabel e Antônia. Vítima daquela rotina que matou a família Favais.

A belíssima cena em que vimos um Jaime mais jovem brincando com a pequena Antônia serviu para mostrar isso. Serviu para nos dizer: “Ei, não fique feliz com o que vai acontecer. Jaime não merecia isso”. Ver sua filha dizer-lhe que ele desgraçou a sua vida, ver o ódio nos olhos da pessoa que ele mais amou, simplesmente não foi bom para Jaime. Ele não merecia isso. Nenhum pai merece passar por isso. E isso dilacerou o seu coração. Foi isso que o empurrou daquele penhasco e o fez cair sem ao menos gritar. Jaime morreu no momento em que ouviu tudo o que Antônia lhe disse e não quando caiu. Jaime morreu no momento que constatou o quanto tinha destruído a vida da própria filha. E ver um embate desses entre pai e filho, gente, não é natural. É feio. É doentio. É violento. É animal.


A morte da Jaime é a grande tragédia anunciada da minissérie. É o fim definitivo da família Favais. E isso é lindamente simbolizado quando vemos a plantação seca, quando vemos a vinícola morta. Essa cena foi tão significativa de tudo o que eu disse que eu senti um arrepio em todo o meu corpo ao assisti-la. Foi mais cruel do que qualquer outra cena poderia ser. E ao mesmo tempo, mais poética do que eu jamais poderia imaginar. Foi GRANDIOSA.

E a opção de terminar a minissérie com Antônia na praia com o pequeno Leandro e Isabel foi o consolo que um pai dá a um filho após um pesadelo. “Amores Roubados” foi genial em toda sua trajetória, mas também foi perversa, foi pesada… E terminar com aquela pequena cena ensolarada foi a forma de dizer: Hey, apesar dos pesares, Antônia tem uma nova chance. Apesar de tudo, Leandro deu-lhe a chance de recomeçar… De criar sua própria família… Ali mesmo em Sertão, mas não na terra suja do sangue de Leandro e Jaime, e sim a beira do rio São Francisco, que com sua água pura leva tudo, até o pior dos sofrimentos…
Bem, pelo menos foi isso o que a própria Antônia nos disse no capítulo anterior.

“E o que faz “Amores Roubados” ESTUPENDA, Thiago?” – Vocês me indagam…

- Além de tudo isso, o que é que não a faz? – Eu lhes devolvo a indagação.

::: Alguns Devaneios Finais:
- Não é hora de tentar mensurar o imensurável. Não há no elenco UM ator que se destaque perante os outros. Todos foram excepcionais. Meus parabéns a Patrícia Pillar, Dira Paes, Ísis Valverde, Cássia Kis Magro, Murilo Benício, Cauã Reymond, Irandhir Santos e Osmar Prado pelo trabalho excepcional.

- Parabéns também a Jesuíta Barbosa pela espetacular estreia na televisão. Já ficarei ansioso em vê-lo em outro trabalho.

- Parabéns também a George Moura que, novamente, apresenta uma obra fantástica, delicada, bem trabalhada. Um roteirista talentosíssimo. E parabenizo também José Luiz Villamarim por mais uma direção impecável. Um dos diretores mais fantásticos que a Globo tem. E aproveito também para agradecer a todos os envolvidos na produção da minissérie… Esses dois são geniais, mas só quem faz TV sabe que eles não fariam nada sozinhos. O crédito é de todos os envolvidos nesta produção.

- Um parabéns especial a Walter Carvalho, diretor de fotografia, que transformou os cenários áridos do sertão nordestino em um personagem vivo da minissérie.

- Durante o episódio, em uma das passagens mais tocantes, fomos presenteados com uma linda versão de “Jura Secreta”, do Fagner. Essa música coroou uma trilha que, durante toda a minissérie, foi espetacular.

- Foi triste ver a abertura pela última vez. Primeiro, porque foi triste se despedir da minissérie, mas também porque a abertura era primorosa. Linda.

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